Maurício Noriega

Entrevista concedida em 16/11/2010

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Em entrevista exclusiva ao Palmeiras Todo Dia, o comentarista e apresentador do SporTV, Maurício Noriega, opinou sobre o embate entre Felipão e os cronistas esportivos, negou ser corporativista e admitiu que há muito a melhorar “do nosso lado”. Defendeu a isenção da própria análise, “quando estou trabalhando, não tenho time”, e falou sobre a mídia palestrina. 
 
PTD: A relação entre Palmeiras e Imprensa, tema da tese Imigração e Futebol: O Caso Palestra Itália; José Renato de Campos Araújo, é historicamente tumultuada. Periodicamente, esse relacionamento em crise alcança picos consideráveis. O embate entre Felipão e os cronistas esportivos é exemplo prático e recente. Não restrito a este episódio, como você enxerga a questão? Há razão em ambos os lados? Ou em nenhum?

MN: Não posso responder quanto aos conflitos que existiram nos tempos do Palestra Itália, toda a questão da mudança do nome, da Segunda Guerra, das pressões que o clube sofreu, das ameaças para que o clube perdesse seu patrimônio, porque não conheço este tema a fundo.

No caso do Felipão, a relação dele com a mídia já era tumultuada quando ele treinava o Grêmio, é uma característica dele, do trabalho dele. Vejo que ele tem razão em algumas coisas e os repórteres, em outras. Concordo com ele quanto ao salário, acho cruel num País como o nosso ficar falando quanto um cidadão ganha. É problema particular. Mas de onde essa informação saiu? Muitas vezes de dentro do próprio clube, de blogs e sites de vertentes políticas do Palmeiras. Ninguém inventa notícia. No Palmeiras, as crises brotam de dentro do clube, a oposição planta notícias, falta unidade política. O que é preciso é checar e verificar as fontes. Acho que o Felipão está equivocado, por exemplo, no caso do Valdivia. Quem quer saber o que acontece com ele é a torcida do Palmeiras, não apenas a mídia. E o torcedor tem o direito de saber. A questão é complexa. Acho que tem muita coisa equivocada do nosso lado, na mídia, e também do lado dos treinadores e jogadores. É preciso buscar o consenso e o respeito de ambas as partes. Não sou corporativista nesse caso, tem muita coisa que precisa melhorar do nosso lado, o nível das perguntas, o preparo dos jovens repórteres etc. Eu demorei anos para cobrir um grande clube, hoje levam semanas. Não pode ser assim.  
      
PTD: Todo torcedor reclama da cobertura dada pela imprensa ao próprio time. Por essa questão histórica, o palmeirense reclama mais? O palmeirense tem razão em reclamar mais?

MN: Acho que não. A reclamação é geral, e faz sentido. O torcedor é apaixonado e acha que todos estão sempre contra o time dele. Não faz sentido uma empresa de comunicação tratar mal uma instituição que tem, por baixo, 15 milhões de torcedores no Brasil, é uma marca de prestígio mundial, de história. Em 2008, por exemplo, o Palmeiras foi o time que teve a maior exposição na mídia, o correspondente a cerca de R$ 2 bilhões.

Sou filho de jornalista. Com meu pai, o narrador Luiz Noriega, sempre acompanhei os grandes clubes desde pequeno e nunca me lembro dele ter falado algo de preconceito contra este clube ou aquele. Acho que se criou entre setores da torcida do Palmeiras essa questão de que a mídia persegue o clube. Qual mídia, qual veículo? É preciso ser direto na crítica nesse aspecto, dar nomes. O Palmeiras sempre foi considerado um clube pioneiro historicamente, em uma série de aspectos, e foi elogiadíssimo na época da parceria com a Parmalat. O que aconteceu foi que de 1999 para cá o Palmeiras ficou afastado das grandes conquistas e isso tem um reflexo imediatista na cobertura da mídia. São ciclos que envolvem os resultados.

É preciso, no entanto, perguntar como o Palmeiras trata sua própria marca. Dou exemplos. Neste ano trabalhei em jogos do Palmeiras em Teresina, em Goiânia e em Belém. Nos três jogos, o Palmeiras tinha mais torcida no estádio que os times da casa. E não havia uma, repito, uma ação de marketing para aproveitar isso, para capitalizar. Há alguns anos, um jogador foi contratado pelo Palmeiras numa pré-temporada e na hora de ser apresentado à imprensa, o diretor à época mandou comprar uma toalha com o símbolo do clube para servir de pano de fundo para as fotos. Não pode. O Palmeiras é um gigante do futebol mundial. Como todos os grandes clubes brasileiros, não sabe o tamanho da sua marca, a sua força. Precisa se vender melhor.

PTD: O Palmeiras trata mal a imprensa? Dificulta o trabalho dos jornalistas de alguma forma?

MN: Olha, sinceramente, o que posso dizer é que o clima nos jogos no Palestra Itália mudou muito através do tempo. Eu ia aos jogos de todos os times com o meu pai, quando ele narrava, e no Palestra a gente chegava antes, almoçava no restaurante do clube, era um ambiente muito bom. Lembro-me de ir aos treinos dos clubes com ele, de todos, e me lembro de um dia ter conhecido o grande Oswaldo Brandão num treino do Palmeiras, de ter conhecido o Leão, o Luís Pereira, num clima cordial, muito bacana. Meu pai sempre elogiou muito diretores do Palmeiras com os quais ele teve relacionamento ótimo, de respeito, como o Nélson Duque, o Paschoal Giuliano, o Márcio Papa (de quem também virei amigo), o Raiola, o Gottardi. Ele sempre foi respeitado, mesmo quando criticava o clube. E meu pai declarou várias vezes que torce para o São Paulo, sempre foi respeitado porque é um jornalista corretíssimo, de alto nível, um mestre.

Eu, inclusive, quase fui jogar futebol no Palmeiras. Uma vez nossa família foi almoçar no clube de campo do Palmeiras e me chamaram para participar de uma pelada. Eu tinha 13 anos, era grandão pra idade, tinha praticamente o mesmo tamanho de hoje, e jogava bem. Um diretor do Palmeiras veio falar comigo, perguntou quem era meu pai etc. Quando viu que era o Luiz Noriega, conversou com ele. Aí meu pai veio falar comigo e disse: esse senhor é diretor do Palmeiras, ele quer que você vá jogar no Palmeiras, quer que você faça um contrato, você quer? Eu jogava vôlei na época, joguei muitos anos, cheguei a jogar em grandes times, ganhei salário e tudo, e não aceitei. Mas para você ter uma idéia da história, dias depois chegou uma carta do Palmeiras em casa com uma minuta de contrato, perguntando ao meu pai se eu não queria mesmo aceitar.

Eu nunca tive problemas em minha trajetória profissional quando cobri o Palmeiras. Mas nos tempos em que o clube estava sem títulos, no final dos anos 80 e antes do título paulista de 93, o clima era pesado nos jogos do Palestra. Eu vi um cara puxar uma arma nas numeradas e apontar para um colega jornalista na tribuna de imprensa num jogo em que o Palmeiras perdeu para o Bragantino. Mas tirando alguns excessos, a pressão não é nada diferente do que acontece em jogos do Corinthians, do São Paulo, do Santos e da Portuguesa, no Nordeste, no Sul, em toda parte.    
      
PTD: Em alguns casos, diante de lances polêmicos, os comentaristas brigam com a imagem na tentativa de fazer valer opinião emitida antes do replay. Por vezes, chegam a lembrar Nelson Rodrigues defendendo a não existência de um pênalti claro, porém não marcado, contra o Fluminense. O escritor, tricolor fanático, quando 'desmentido' pelo VT, celebrizou: "Se o vídeo diz que foi pênalti, pior para o videoteipe. O videoteipe é burro." Por que isso acontece? É um problema de interpretação? A regra não é clara?

MN: Eu sempre brinco com o Arnaldo Cezar Coelho e digo que a regra é tudo, menos clara. Se ela permite interpretação, não pode ser clara. Agora, a questão do brigar com a imagem têm dois lados. Primeiro, muita gente cita isso porque é um jargão da TV, quer mostrar conhecimento, e pouca gente sabe do que fala. Nós, do SporTV, fazemos 99% dos jogos nos estádios, e no estádio você tem uma visão que vai além da visão da câmera, da tela, que é a imagem que as pessoas têm em casa. Essa imagem pode ser ilusória, dependendo do ângulo, ou pode ser pouco conclusiva. Muitas vezes a câmera não capta direito o lance por uma série de fatores. Em outras, o ângulo da transmissão não é tão preciso quanto o ângulo que o árbitro tem quando está bem posicionado. E muitas vezes, como o árbitro, o torcedor, o técnico e o jogador, eu erro em uma interpretação ou tenho uma opinião diferente da dos torcedores. Isso é normal, não sou o dono da verdade e, várias vezes, já refiz minha opinião quando estou convencido de que devo fazê-lo. Um lance pode parecer pênalti para mim e não parecer para outros e vice-versa.

Cito um exemplo que eu sei que está embutido nessa pergunta, o jogo Atlético x Palmeiras, pela Sul-Americana, o pênalti no Obina. Eu, o Milton Leite e muitos outros colegas que estavam no estádio, pela visão da cabine, achamos que houve pênalti. O estádio é pequeno, dá para ver o jogo muito de perto, com boa visão. As imagens da transmissão não trouxeram, infelizmente, o ângulo que nós tínhamos da cabine e nem a câmera que fica atrás do gol, que lá não pode ficar atrás do gol, porque não tem espaço suficiente. E lembrem-se: o árbitro estava no canto esquerdo do ataque do Atlético, o pênalti aconteceu no meio da área, e a imagem da TV é captada da direita, do meio do campo para o lado direito. Ou seja: o juiz tinha uma diagonal perfeita, limpa, sem ninguém à frente dele. Nenhuma imagem de TV tinha esse ângulo. Da cabine, eu vi claramente o Márcio Araújo se mover em direção ao Obina e utilizar o braço direito. Se isso foi suficiente para derrubar, é outro caso. Eu entendi que foi. Quando o cara diz que eu brigo com a imagem, que o Márcio nem toca no Obina, ele é injusto, porque o contato houve. O que não quer dizer que eu esteja certo, que o árbitro esteja certo. Essa interpretação pode estar equivocada, mas é honesta. Digo mais: vários jogadores do Palmeiras me procuraram após o jogo naquele dia e nenhum, repito, nenhum perguntou do pênalti do Obina, todos perguntaram do lance do pênalti marcado para o Palmeiras e depois anulado. Esse foi o equívoco grave do jogo. O outro lance é interpretativo. E respeito todas as interpretações. Inclusive recebi e-mails de palmeirenses que me criticaram duramente e também de palmeirenses que também acharam que foi pênalti. É normal.

Cito um caso famoso, da Copa de 98, Brasil x Noruega. O Júnior Baiano fez um pênalti e o mundo caiu na cabeça do juiz. Não havia uma imagem da FIFA que mostrasse o pênalti. No dia seguinte, uma TV sueca mostrou uma imagem que evidenciava o pênalti, que ele tinha puxado a camisa do atacante norueguês. 
      
PTD: Tecnicamente, quais são as ferramentas que vocês dispõem para analisar uma partida? Um lance? A aparelhagem na qual vocês se baseiam é satisfatória?

MN: É bastante satisfatória, mas não chega ao requinte de uma Copa do Mundo, com aquele mar de câmeras, de imagens, o super slow motion. Trabalhamos com até 22 câmeras no total, temos as imagens da transmissão em telas de boa definição na cabine e podemos solicitar aos coordenadores de transmissão a repetição de lances duvidosos. Mas equipamentos são operados por pessoas que muitas vezes perdem um ângulo, que erram, como todos nós erramos. E equipamentos falham também. Muitas vezes a imagem não é conclusiva. Os estádios são precários, não há profundidade de câmera, não tem espaço para a câmera de impedimento captar tudo etc. Os estádios e as cabines não ajudam em nada, poucos têm boa estrutura. O que eu acho que ainda falta, por exemplo, é o ângulo invertido, que tiraria muitas dúvidas. Mas onde colocar a câmera? No meio da arquibancada? Dependendo do estádio e da torcida, são capazes de matar o cinegrafista e destruir o equipamento. 
       
PTD: Os jornalistas palmeirenses parecem se esforçar para não parecerem parciais quando comentam sobre o Palmeiras. Esforçam-se tanto que, muitas vezes, acabam sendo, porém negativamente. Mauro Beting, em um 'debate' promovido pelo Observatório Verde, fez uma espécie de mea culpa e admitiu que a impressão possuía fundamento. Chegou a confessar que era mais crítico ao analisar o Palmeiras do que ao analisar outros times. Você concorda? Acontece com você?

MN: A opinião do Mauro, um grande amigo e um dos nossos melhores jornalistas, é muito importante. Mas ele tem a postura dele, eu tenho a minha. Quando estou trabalhando, não tenho time. É como a pessoa física e a pessoa jurídica. No trabalho sou comentarista. E aí os torcedores cometem um equívoco. O cara te corneta, diz que você não é imparcial. Na verdade, o analista tem que ser isento. Se eu acho que o time A é melhor do que o B já deixei de ser imparcial. Eu emiti um conceito que denota que eu acho que há melhores jogadores de um lado que do outro. O que eu preciso ser, e sei que sou, é isento ao ponto de dizer que o time B, mesmo não sendo aquele cujo estilo de jogo mais me agrada, está jogando melhor, sendo mais eficiente, entende? Imparcialidade é uma coisa, isenção é outra. Acho que na nossa atividade é preciso ser isento 100%. Na Copa eu torci pelo Brasil, obviamente, mas fui isento ao analisar a produção da seleção. É assim que eu acho que tem que ser. E sejamos honestos, a maioria dos torcedores não quer imparcialidade, eles querem que o cara fale bem do time dele. Não é isso que mais ouvimos? Aí, Noriega, fala bem do meu time etc.  
      
PTD: A imprensa é empresa e, portanto, busca audiência para obter e valorizar patrocínio. A lógica de mercado interfere no Jornalismo Esportivo? Até que ponto? Os times de maior torcida recebem tratamento privilegiado?

MN: Boa pergunta. Veja um fato. Segundo as últimas pesquisas, a torcida do Corinthians é maior que a do Palmeiras e a do São Paulo juntas. Parece óbvio que o Corinthians dá mais audiência. Mas isso não significa que os outros times sejam ignorados. Palmeiras e São Paulo dão boas audiências quando estão bem, o Santos já está num patamar diferente em termos de audiência, mas nos tempos de Robinho e Diego dava boas audiências. Se você vende um produto, vai querer vender para o maior número de clientes, certo? É a questão da audiência no que se refere ao Corinthians e ao Flamengo. O Palmeiras "vende" bem, tem ótima penetração no pay-per-view. Veja o caso de Palmeiras x Atlético-Mg, que a Globo, a Band e o SporTV passaram para o Brasil inteiro, não houve jogo puxado do Brasileiro para "atrair audiência". Quanto ao noticiário do dia-a-dia, vai de acordo com o desempenho dos times. Quem disputa mais títulos, tem melhores resultados, ganha mais espaço, é natural e faz parte do processo. Também é cíclico. E muitas vezes a TV é criticada, como no caso do pay-per-view, mas poucos sabem que são os clubes que querem cada vez mais jogos no pay-per-view porque querem faturar mais.

PTD: O que você pensa sobre a chamada mídia palestrina? Acompanha os sites, blogs e fóruns que a integram?

MN: Acompanho alguns e tem coisas bem bacanas, com boas informações sobre o clube, a Arena, que utilizo inclusive como fonte de informação. Mas também têm coisas muito ruins, cheias de fantasias, de provocações inúteis, notícias claramente inventadas, forjadas e campanhas sem sentido algum. Agora, é uma manifestação legítima e que deve ser respeitada. Cito um caso que uso como fonte, o La Nostra Casa, sempre bem informado sobre a Arena. O Mondo Palmeiras tem boas informações também, o Observatório Alviverde é interessante, bem escrito. Navego em blogs e sites de outros clubes também, alguns são bem feitos, e conseguem boas informações. Já dei muitas entrevistas para sites de torcidas do São Paulo, do Corinthians, do Santos, do Cruzeiro, do Vasco, do Flamengo. Respeito muito os torcedores. Até os que não me respeitam. Alguns são abusados, folgados, mas a maioria é muito legal.

Mas aproveito o espaço para citar algo triste. Há alguns anos, um colega nosso, um repórter brilhante, o Carlos Cereto, foi perseguido e até ameaçado de morte por causa de um site desses que foi irresponsável. Assim como foi irresponsável um jornalista de um jornal de São Paulo que nem merece ser citado. Foi no jogo Mogi x Palmeiras. O Edmundo fez um gol com a mão. Eu era comentarista e antes de a bola entrar no gol falei que foi com a mão, o lance era ridículo de tão fácil. Aí, um infeliz que era da comissão técnica do Palmeiras inventou que o Cereto tinha falado isso pro quarto árbitro e falou com o Leão, que era técnico. Inclusive, o infeliz era parente do Leão, vocês sabem que é. Mostramos as imagens sem edição, o material bruto, o Cereto nem saiu do lugar em que estava, o gol foi anulado pelo bandeira que estava do outro lado e avisou pelo rádio. Aí um desses sites fez uma campanha canalha, espalhou o telefone do repórter, que foi ameaçado, ele e sua família. Tudo por causa desse mau repórter de jornal, que escreveu sem perguntar pro Cereto, pisou na regra básica da profissão, e por causa do infeliz do site que fez isso. É preciso pensar nas coisas antes de chegar a esse ponto.

Entrevista feita por Flavia Camargo e Junior Gottardi

 
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