Leandro Santile

Entrevista concedida em 07/05/2018

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Assim que o Verdão publicou o balanço de 2017, no final do último mês de abril, alguns veículos de comunicação deram ênfase a números que se analisados de maneira incorreta não transmitem a realidade financeira do clube. Manchetes como "Palmeiras tem a maior dívida dos times paulistas", ou "Dívida do Palmeiras é a que mais subiu entre grandes" ganharam espaço em grandes portais esportivos, chamando atenção de Palmeirenses e de rivais.

Sem conhecimento para analisar um balanço, e para não incorrer no mesmo erro de outros sites, o PTD entrevistou Leandro Santile, contador, professor universitário e especialista em legislação tributária.

Abaixo, Leandro, que também é Palmeirense, esclarece algumas dúvidas. Questionamos ele sobre o suposto aumento da dívida e do adiantamento de receitas, além de abordar outras questões, todas relacionadas ao balanço que pode ser visto aqui.

Nos últimos dias, após a divulgação do balanço, alguns veículos de comunicação deram destaque ao fato de a dívida do Palmeiras ter crescido em relação a 2016. Essa afirmação corresponde à realidade?

Primeiramente obrigado pela oportunidade de esclarecer aos torcedores do Palmeiras sobre esses pontos e também poder falar um pouco de contabilidade, afinal as demonstrações contábeis não são produzidas para que qualquer pessoa possa entende-las e assusta quando alguém pega um balanço, tira suas conclusões, sem ser um especialista e acaba divulgando.

Para responder essa questão temos que entender que dívida é algo que tem que ser pago, e pode ser pago de inúmeras maneiras, mas a mais comum é com o dispêndio de numerários, um empréstimo bancário só pode ser pago dessa forma. Contabilizamos no passivo as obrigações da empresa em geral e isso gera uma confusão sobre o que é dívida e o que é uma simples informação contábil.

No passivo do Palmeiras encontramos o seguinte (trabalhando com milhares de reais):

- Total de 2016: R$ 503.976, sendo R$ 221.800 de curto prazo e 282.176 de longo prazo;
- Total de 2017: R$ 555.298, sendo R$ 250.959 de curto prazo e 304.339 de longo prazo.

Desses totais temos provisões para contingências, que são valores lançados na contabilidade para que se "antecipe" uma casualidade, se nada acontecer por ex isso jamais será "gasto", desses totais temos R$ 41.303 em 2017 e R$ 34.280 em 2016.

Chama atenção empréstimos e financiamentos que foram reduzidos tanto no curto quanto no longo prazo só nesse item (que requer dispêndio de recursos) houve um decréscimo de R$ 80.224;

Ocorreu um aumento no contas a pagar, que estão alguns gastos inclusive com atletas no montante de R$ 51.234

O que chama atenção no balanço são dois termos usados (antecipação de contratos) que dão a impressão que foram feitos empréstimos usando-se os contratos de transmissão. Sem analisar os contratos, temos que verificar o que é descrito nas notas explicativas do balanço, nesse caso a nota 11, onde alerta que parte desse valor é de recebimento por luvas e antecipação de contrato de publicidade.

Bem o que entender com isso? Existe um aumento considerável do passivo?

O recebimento de luvas não é um empréstimo, nada mais é que um "prêmio" recebido por ter feito algum acordo, portanto não pode ser considerado dívida, pois não será necessário tirar dinheiro do caixa do clube para pagar, essas luvas são uma RECEITA, porém uma receita de exercícios futuros, por exemplo: Se o Verdão recebe luvas por vender o contrato de patrocínio para o ano que vem de R$12.000,00, se não houvessem essas luvas ele iria receber R$ 1.000,00 por mês no próximo ano a mais não iria? Então a receita é proveniente do próximo ano, portanto não pode ser contabilizada como receita e sim no passivo, e durante o próximo ano, mês a mês ela vai ser apropriada como receita.

Só é considerada um empréstimo se antecipar o contrato de patrocínio ou de transmissão, pagando-se juros para isso.

Sabemos que a patrocinadora tem comprado espaços de patrocínio nos diversos pontos da academia para fazer o pagamento de salário de jogadores (isso foi divulgado pela própria imprensa), dessa forma podemos entender que essas antecipações correspondem a esse tipo de valores e que irão virar receitas no decorrer do contrato.

Imagine se fosse contabilizar esse recebimentos como receita? Quanto seria o nosso superávit no ano de 2017? Muito maior do que o que realmente foi e contabilmente, porém, estaria incorreto de acordo com as normas atuais.

Bem, agora respondendo diretamente a questão sobre o aumento da dívida, sim ocorre um aumento da dívida, mas não em proporções como as apresentadas pela mídia e sim dentro de um montante normal tendo em vista o aumento de receitas e também o investimento feito.

Mesmo se considerarmos o passivo total. Em 2016 era de R$ 503.976 e foi para R$ 555.298, como pode ter aumentado R$ 164 milhões como alguns canais informaram?

De quanto é, de fato, a dívida do Palmeiras? Ela é "administrável"?

Sem acesso aos contratos para definir o que é luva e o que é antecipação fica difícil falar o valor real da dívida, mas ela é totalmente administrável sim, dívidas que exigem o pagamento com saída de dinheiro do clube representam aproximadamente R$ 350.000

A dívida bancária de fato foi extinta, como o presidente Maurício Galiotte divulgou?

Ela não foi extinta, mas foi reduzida e muito, de 2016 para 2017 a redução foi de R$ 80.224, ou seja uma redução de aproximadamente 63%

Foi um bom negócio adiantar o pagamento da dívida com o ex-presidente Paulo Nobre?

Paga-se CDI na composição da dívida com o ex presidente, um juro muito baixo para os padrões do mercado, porém é difícil conseguir uma aplicação que gera um recurso superior, e no meu ponto de vista, os pagamentos não estão atrapalhando o fluxo de caixa do Palmeiras, portanto foi sim um bom negócio adiantar os pagamentos.

Mais um ponto para comprovar que as luvas recebidas não podem ser consideradas dívidas, pois serão amortizadas no tempo de contrato, integrando a receita, e foram usadas para liquidar parte desse passivo que zerava o pagamento de dívidas.

Outro assunto abordado com destaque pela imprensa: o adiantamento de receitas, na ordem de R$ 100 milhões. O que pode falar sobre isso?

Esse é o tópico mais complicado de se tratar, como expliquei na primeira questão, precisa-se analisar os contratos, mas se foram luvas, não há o que discutir, pois qualquer empresa, nem vou dizer clube, que tem a oportunidade de receber as mesmas, deve fazer, vamos imaginar seria melhor receber R$ 100 milhões em 10 anos ou recebê-los na totalidade hoje, sem incorrer o desconto de valores por pagamentos de juros?

Além disso no ano anterior já existia uma antecipação de contratos no valor de R$ 93.789, esse ano foi para R$ 164.461, ou seja o que foi recebido em 2017 foi 70.821 e não a totalidade.

PTD: A respeito do novo modelo do contrato com a Crefisa, isso já impactou o balanço de 2017? Pelas informações que tem a respeito, tende a comprometer de algum modo as finanças do clube?

Não houve impacto, ainda não foram contabilizados os contratos com a Crefisa, isso irá ocorrer em 2018 por questões contábeis.

Pelas informações que tenho, a respeito, são contratos de empréstimo, portanto irão aumentar a dívida do Palmeiras. Porém não tenho como afirmar, pois não tenho detalhes de como será feito o pagamento de juros, se eles existirem.

Nesse caso a presidente da patrocinadora irá falar ao COF sobre o assunto para explicar como será feito o pagamento dos mesmos, temos que aguardar, mas pode ser um ponto preocupante, podemos contar apenas com a palavra do patrocinador.

É correto afirmar que pelo balanço divulgado, o Palmeiras não "turbina" os números, como outros clubes fazem?

Para uma resposta 100% correta, precisaria fazer uma auditoria nas contas, observando os números, mas posso afirmar que a contabilidade está sendo apresentada de um modo muito transparente e que tenho que parabenizar os contadores.

Eles poderiam colocar essas luvas como receitas, assim aumentaria o superávit (lucro) e não iriam aparecer no passivo, porém não estariam agindo de acordo com as novas normas contábeis.

Parabéns aos profissionais contábeis da SEP.

Para finalizar, Leandro ainda fez as seguintes colocações:

- Não existe retorno sem investimento e para se investir deve-se gastar. Vamos analisar a pior das hipóteses que é a pintada pela mídia, o verdão deve R$ 503 milhões como dizem por ai, se vendermos nosso elenco, quanto iremos faturar? Dá para pagar essa dívida? Se a própria mídia diz que é o elenco mais valioso do Brasil a resposta para mim é bem clara.

- As luvas recebidas de patrocínio podem ser um pouco arriscadas, pois temos realmente que ver os contratos para discutir melhor, porém as luvas por transmissão é um ótimo negócio, além de receber já no momento da assinatura, iremos expor nossa marca e assim aumentar cada vez mais o valor da mesma, e numa próxima renovação receber ainda mais.

- Temos uma receita que condiz com o endividamento atual em um estudo apresentado na ESPN alguns dias atrás revela que o Palmeiras liquidaria sua dívida em pouco mais de dois anos, ou seja deve 2 faturamentos, sendo o menor tempo das comparações feitas, o Flamengo era de 5,9 anos, ou seja, 5,9 faturamentos.

- A imprensa fala do aumento do passivo, mas não fala do aumento do Ativo, nosso ativo saltou de R$ 475.925 em 2016 para R$ 584.270 em 2017 ou seja um aumento de R$ 108.345 também seria necessário uma análise para ver se tudo que está no ativo é um gerador de caixa. Mas como disse no início desse tópico, o investimento está ai, em nosso ativo.

- Portanto, não devemos observar apenas passivo em uma análise, e sim todo o conjunto das demonstrações, incluindo notas explicativas e também o cenário da atividade da empresa, fazendo comparações entre as concorrentes para determinar se a dívida é algo preocupante ou não.

- Deixo algo ao final para nossa torcida, onde me incluo claro, pensar: Será que nossos "concorrentes" contabilizaram a dívida com estádio como nós fazemos com as luvas? Será que eles contabilizaram em seus balanços as antecipações por fechar a transmissão de forma correta? Bem não tenho como falar, será que é melhor dever 100 milhões e ter um Pardalzinho no ataque, ou dever 200 milhões e ter Dudu?

O PTD agradece ao Leandro pelos esclarecimentos.
 
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